SANTIAGO MUDA DE IDEIAS A CADA CURVA
Chegaste à espera de uma ilha. Santiago manda-te para casa com várias.

Santiago não tem qualquer interesse em manter uma só cara.
Sai da Praia sob um céu azul e duro e a ilha começa a mudar as provas. Encostas secas dão lugar a vales cultivados. A estrada sobe. O ar suaviza. O verde aparece onde, algumas curvas atrás, parecia um rumor improvável.
Não é uma ilha para compreender através do para-brisas.
Paras.
Em São Jorge dos Órgãos, o jardim botânico reúne plantas de Cabo Verde e de muito para além dele. Mais acima, a Serra Malagueta faz outra proposta: cristas, vales profundos e caminhos que parecem continuar depois de o mapa perder a confiança.
A visita óbvia colecionaria os nomes e continuaria a andar.
A RITE Guide interessa-se pela interrupção.
A fruta da estrada que não planeavas provar. A paisagem para a qual Manuel te pede que te vires. A discussão sobre qual aldeia faz alguma coisa como deve ser. A canção que entra no carro a meio do caminho e, de algum modo, fica para sempre ligada à paisagem.
Manuel conhece Santiago como residente, não como uma sequência de pontos. Isso importa. Um bom dia de ilha precisa de estrutura, mas também de ar suficiente para a curiosidade se portar mal. Faz a pergunta extra. Tira a fotografia sem pressa. Deixa o almoço transformar-se numa conversa, não numa paragem programada para abastecer.
Os factos dirão que Santiago é a maior ilha de Cabo Verde. Falarão de serras, vales, mercados e costa. Factos úteis. Factos necessários.
Mas os factos, sozinhos, não explicam o truque que Santiago faz à memória.
Semanas depois, talvez esqueças a ordem das paragens. Vais lembrar-te da pedra quente debaixo da mão, da nuvem presa numa crista, de um sabor cujo nome não consegues encontrar e do momento em que a ilha mudou de cor pela janela.
Chegaste à espera de uma ilha.
Santiago manda-te para casa com várias.










