A CIDADE PRECISA DE UM GRANDE ECRÃ
Um filme deve começar antes de as luzes se apagarem — e ficar com a cidade depois de voltarem a acender-se.

FADE IN:
Quebra Canela. Um cartaz. Uma hora de sessão. A decisão de sair de casa.
Essa última parte importa.
A internet pôs quase todos os filmes ao nosso alcance e, de algum modo, tornou mais difícil manter a atenção. Em casa, o ecrã compete com o telemóvel, a porta, a cozinha e a perigosa convicção de que uma pausa de cinco minutos não se vai transformar em quarenta.
O cinema fecha as saídas.
ANTES
George vê o CINEPRAIA como três salas, e o auditório é apenas uma delas.
A primeira é a antecipação. Escolher o filme. Escolher quem merece o lugar ao teu lado. Chegar cedo o suficiente para sentir a pequena eletricidade de uma história que ainda não começou.
Uma cidade precisa desse ritual. Não apenas acesso a filmes, mas razões para se reunir à volta deles.
ESCURO
Depois, a sala desaparece.
Um rosto ganha vários metros de altura. O som entra pelas costelas. Uma sala de desconhecidos concorda, por instantes, em olhar na mesma direção.
O teu sofá nunca prendeu a respiração. Uma plateia consegue.
Esse silêncio partilhado é o efeito especial mais antigo do cinema. Pode transformar espetáculo em espanto, comédia em contágio e um filme difícil numa conversa que a cidade ainda não sabia que precisava de ter.
O CINEPRAIA já dá à Praia um lugar para as estreias atuais. A sua possibilidade maior é a amplitude cultural: histórias cabo-verdianas, cinema africano, filmes que o algoritmo nunca pensaria colocar lado a lado, noites em que a sessão é o começo e não o produto completo.
DEPOIS
A terceira sala começa com os créditos.
O jantar sabe diferente quando todos ainda estão dentro da mesma história. Um passeio transforma-se numa discussão sobre o final. Alguém envia uma mensagem na manhã seguinte: não consigo parar de pensar naquela cena.
É aqui que o CINEPRAIA pode tornar-se mais do que uma programação. O filme deve espalhar-se pela Praia — pelas mesas, ruas, entrevistas, apresentações e pelo próximo título que alguém nunca teria escolhido sozinho.
O percurso de George no cinema torna-o exigente com isto. O enquadramento importa. Tudo o que se coloca à volta também. Uma grande sessão pode ser enfraquecida antes de começar e abandonada cedo demais quando termina.
Equilibrem-se as três salas e o cinema torna-se uma noite que a cidade possui em conjunto.
O ecrã fica negro.
O filme acabou.
A noite ainda não.










